A Crise da Europa

A Crise da Europa

No dia em que Angela Merkel nos visitou senti-me um homem de uma “seigneurie” que recebia a visita do seu “seigneur”. Era o retorno a uma época medieval onde o “seigneur” visitava as suas terras, via, ouvia e deixava ordens. Isto não é injusto para Angela Merkel, nem para a Alemanha, mas antes a imagem real da União Europeia (UE) de hoje. Uma UE que não tem, aparentemente, instituições capazes de gerir e cumprir o projeto europeu, e vive em função das eleições na Alemanha e da agenda política pessoal de Angela Merkel.

Eu escolho ser Europeu, mas não escolho, nem escolhi, ser Alemão. O projeto europeu, não é, de forma nenhuma, a Alemanha, nem se confunde com os seus interesses. A UE é um projecto de paz, uma união racional de povos e culturas diferentes que partilham valores comuns e querem ter a mesma estratégia de desenvolvimento. Não foi constituída à força, submetendo os vencidos, mas antes é o resultado daquilo que distingue a humanidade: a sua capacidade de construir e de sonhar. A UE tem de perceber isso e tem de atuar assumindo-se como projecto colectivo. Parecem-me evidentes, numa lógica de união, as seguintes acções:

1. O Banco Central Europeu deveria comprar toda a dívida pública dos países aflitos, acima de um valor PIB acordado como máximo. Seria um investimento na construção da União;

2. A UE deveria estabelecer um plano a longo prazo (100 anos), com juros simbólicos (1%), para pagar essa dívida. Como se fossem países num pós-guerra: a Alemanha teve essa ajuda duas vezes, depois de ter provocado guerras que mataram milhões de pessoas, destruíram a economia de centenas de países e atentaram contra a liberdade de todo o planeta;

3. Os países sob ajuda deveriam ser impedidos de apresentar deficit orçamental negativo, pelo que teriam de implementar um conjunto de reformas estruturais sob tutela da UE;

4. O Parlamento Europeu deveria legislar no sentido de impedir a compra de produtos de elevado valor por parte dos países com uma dívida superior ao valor máximo do PIB. Isso evitaria a insustentabilidade futura dessas economias. Por exemplo, só a Grécia gastou 80 mil milhões de euros em submarinos alemães, caças franceses e tanques italianos, que todo o sistema bancário europeu se esforçou para financiar. Produtos de elevado valor significam: submarinos, tanques, caças, automóveis de alta cilindrada, barcos de recreio, aviões e avionetas, etc., coisas não essenciais ao desenvolvimento de um país. Quem não tem dinheiro, não tem vícios.

A UE deveria saber, e nisso concordo com o presidente do Banco Central Alemão, que perdoar a dívida não serve de nada se não forem realizadas reformas DENTRO e FORA (incluindo na Alemanha) dos países em dificuldades: a dívida voltaria em poucos anos, talvez ainda com mais força. Os líderes da UE deveriam ter presente que com a constituição da UE se guardaram todos os demónios, nacionalismos, invejas, rivalidades e rancores, numa caixa dourada que entregaram à guarda das instituições da UE. E que apesar dos apelos de muitos, os líderes da UE devem resistir a abri-la. Se acham que a situação é má, nem queiram saber naquilo que se vai tornar com esses velhos demónios à solta de novo. A chave para abrir a caixa, como deviam saber muito bem, é o limite da dignidade dos povos que, no caso da Grécia por exemplo, já foi ultrapassado. Portugal está em dificuldades, sim. Agradece a ajuda que nos quiserem dar, sim. Mas este país com mais de 800 anos não é uma “seigneurie”, não tem um “seigneur”, não está à venda, nem vai terminar. É esse o espírito da UE.

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