De uma democracia demencial. Co-adopção e Manifesto dos 70

De uma democracia demencial. Co-adopção e Manifesto dos 70

São de facto tão impressionantes quanto preocupantes o ódio, a raiva, a intolerância e o desejo de pura exterminação do outro com que certas pessoas, com responsabilidades ao mais alto nível e visivelmente com uma concepção distorcida de democracia e de respeito por opiniões e mundividências diferentes, se exprimiram contra aqueles que se manifestaram livremente quer contra a co-adopção (ver os meus dois textos anteriores neste blog), quer contra os subscritores do Manifesto dos 70!

A democracia portuguesa está urgentemente a precisar de ir ao psiquiatra! Estou convencida de que a coisa é tão grave que já não vai lá nem com 150 anos de psicoterapia. A gravidade da situação exige mesmo o recurso a uma pesada terapia química! O artigo de Pacheco Pereira dado ontem à estampa ontem no jornal Público é bem revelador do cego estado demencial em que o país está mergulhado:

«É difícil imaginar tanta raiva, tanta vontade de calar, tanto desejo de pura exterminação do outro, como aquele que se abateu sobre o manifesto dos 70 signatários a pretexto da reestruturação da dívida, uma posição expressa em termos prudentes e moderados por um vasto grupo de pessoas qualificadas, quase todas também prudentes e moderadas.

Nem isso poupou os seus signatários a uma série de insultos, acusações ad hominem, insinuações e o que mais adiante se verá. Sobre eles caiu a excomunhão que retira os seus nomes do círculo de ferro da confiança do poder. […]

Veio ao de cima tudo, a começar pelo primeiro-ministro, que os tratou de essa “gente”, ou porque tinham uma “agenda política” ou porque eram “cépticos” por natureza, inúteis para o glorioso esforço nacional de empobrecer como programa de vida. O manifesto era“antipatriótico”, com um timing inaceitável, a dois meses da“libertação” de 1640, feito pelos “culpados” do esbanjamento, pelos “velhos” a defenderem os seus privilégios, pelos defensores do statu quo dos interesses instalados, pelos “jarretas”, pela “geração errada”.[…] José Gomes Ferreira é mais claro: “Estará a vossa iniciativa relacionada com alguns cortes nas vossas generosas pensões?” […] José Gomes Ferreira pergunta: “Que tal deixarem para a geração seguinte a tarefa de resolver os problemas gravíssimos que vocês lhes deixaram? É que as vossas propostas já não resolvem, só agravam os problemas. Que tal darem lugar aos mais novos?” […] José Gomes Ferreira vai mais longe — se as coisas correrem mal, a culpa é vossa: “Mesmo sendo uma proposta feita por cidadãos livres e independentes, pela sua projecção social poderá ter impacto externo e levar a uma degradação da percepção dos investidores, pela qual vos devemos responsabilizar desde já. Se isso acontecer, digo-vos que como cidadão contribuinte vou exigir publicamente que reparem o dano causado ao Estado.”

A mensagem essencial é “saiam da frente”, a mesma que está na capa e no título de um livro de Camilo Lourenço, que achava bem que houvesse um novo resgate porque isso “disciplinaria” os preguiçosos dos portugueses. […]

Este surto de raiva, com laivos claramente censórios, não me surpreende. Estava à espera dele, na sua magnitude e violência. E não vai acabar, vai-se tornar endémico. Ele é o efeito a curto prazo de uma política que se assume para vinte ou trinta anos de empobrecimento, centrados num único eixo: pagar aos credores, obedecer aos mercados. Essa política não pode ser conduzida em democracia, só pode existir com base num regime autoritário.» (http://www.publico.pt/economia/noticia/a-raiva-que-o-manifesto-dos-70-provocou-1628297).

Estes comportamentos paradoxais, esquizofrenogénicos mesmo, fizeram-me vir à memória o “paradoxo da tolerância” de Karl Popper: “Se formos de uma tolerância absoluta, mesmo para com os intolerantes, e se não defendermos a sociedade tolerante contra seus assaltos, os tolerantes serão aniquilados, e com eles a tolerância”.

 

Ana Maria Ramalheira

About author

Related Articles

Deixar uma resposta