Estou muito preocupado

Estou muito preocupado

Não é preciso muito, caro leitor, para perceber que vivemos uma situação insustentável que exige de todos nós bom-senso e clarividência. Portugal está sobre ajuda externa porque foi incapaz, ao longo de décadas, de se mobilizar para debater o seu futuro, encontrar as soluções e realizá-las. Ao invés disso, deixamos o facilitismo, o laxismo e o despesismo tomar conta da nossa vida. A democracia e a liberdade, valores e bens que tanto nos custaram a obter, foram desmerecidas e tomadas como algo garantido e imutável que não precisava de ser cuidado, trabalhado e, sobe muitos pontos de vista, educado: a sua defesa não é um custo, mas sim um investimento. Hoje é verdadeiramente confrangedor ver a qualidade dos eleitos para desempenhar funções no Estado, ao nível nacional e local, nos vários órgãos de poder. Quando todos pensávamos que o acesso aos lugares de decisão tinha uma correlação direta com a capacidade demonstrada numa vida profissional de relevo, e em experiência prática necessariamente longa, eis que verificamos que a tudo isso se sobrepõem as qualidades e experiência “política”.

É fácil encontrar deputados, com pouco mais de 20 anos, cuja única experiência que tiveram foi fazer parte de uma juventude partidária. O mesmo, sem grande dificuldade, se verifica nos níveis intermédios da governação, como por exemplo muitos dos assessores e secretários de estado dos vários Governos dos últimos 20-25 anos. É fácil também encontrar vários exemplos de governantes que não se distinguiram na sua vida profissional e, antes pelo contrário, são conhecidos pelo curriculum de despesismo, de endividamento, ausência de planeamento, de bom-senso e de dedicação à causa pública, mas também no desempenho de funções privadas. As qualidade políticas e de liderança são necessárias, e justamente têm de resultar de anos de atividade profissional intensa que mostre bem um perfil capaz que seja uma garantia de dedicação e independência na defesa do interesse de todos.

Se no Estado estivesse realizada esta pirâmide de competência, em que o foco era colocado em portugueses que não dependem da política e se dedicam à causa pública num exercício temporário de uma missão, o país não tinha chegado a este ponto de perda de soberania e de entrega, em desespero, dos superiores interesses da nação a lógicas que nada têm a ver com Portugal. O país não estaria tomado por interesses transversais aos ciclos governativos que sugam os recursos nacionais. Nem precisava de pagar principescamente a estrangeiros para nos governarem, tendo por base empréstimos de resgate vergonhosos. Nem precisava de relatórios pomposos, com siglas conhecidas, para impor soluções que é incapaz de desenhar e debater com os cidadãos. Perceberia que tem a capacidade de se governar e que tem, internamente, a competência e o conhecimento necessário para o fazer tendo por base um esforço de planeamento a médio e longo prazo que necessariamente mobilizaria toda a população. Ao invés, perceberia que as reformas se fazem ouvindo e debatendo com especialistas nacionais e estrangeiros, mobilizando a população e definindo, em conjunto, um plano estratégico de desenvolvimento em que o país reconhece as suas dificuldades, define metas e organiza os recursos que tem e aqueles que pode obter para as atingir.

É urgente o debate sobre PORTUGAL e sobre a forma como estamos organizados. Teria efeitos mobilizadores e funcionaria como válvula de escape do que aí vem e é assustador. Os sinais que vemos, de todos os partidos, mostram uma espiral de irresponsabilidade e de hipocrisia, numa permanente fuga para a frente, cujas consequências e perigos estão bem documentadas e demonstradas na história universal. Estou muito preocupado e as minhas reflexões não me acalmam o espírito.

 

(Publicado no Diário As Beiras de 17 de Janeiro de 2013)

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