O que o caso Artur me disse

O que o caso Artur me disse

O caso Artur Batista da Silva é verdadeiramente assustador, uma cena de um pesadelo bem real. Um burlão, recentemente saído da prisão e com um historial de fraude e burla bem conhecido, forja toscamente um curriculum académico e profissional, manda fazer uns cartões de visita da ONU (onde coloca a sua morada em Portugal, telemóvel de rede nacional e email do GMAIL), apresenta como tese de doutoramento um documento de 27 páginas copiado da internet, e faz uns telefonemas a gente que ele imaginou que cairiam que nem uns patinhos.

Nesses telefonemas o burlão diz o que, aparentemente, essas pessoas queriam ouvir e autointitula-se consultor da ONU que está prestes a apresentar um estudo sobre os países do sul da Europa, nomeadamente sobre Portugal. Esses senhores ouvem, sentem-se honrados com o contacto e nem se dão ao trabalho de verificar nada do que o Artur diz. Alguns, com dezenas de anos de “experiência”, não desconfiam do tosco curriculum, do cartão de visita a cheirar a burla, nem das incongruências grosseiras do discurso e dos dados que o “consultor” apresenta. Com isso, o Artur tem acesso a órgãos de comunicação social, a programas de televisão, jantares em clubes e outras instituições onde expõe as suas “ideias” perante audiências embasbacadas, e consegue liderar um debate que expõe ao ridículo toda a sociedade portuguesa.

Mas há dois conjuntos de questões que me incomodam e devem ser respondidos de forma clara. O primeiro é o seguinte: como é que uma pessoa com um discurso tão incongruente, cheio de erros e um curriculum tão tosco conseguiu enganar o especialista em economia e diretor adjunto do maior semanário português? Como é que funcionam os jornais, nomeadamente os de referência, para que uma coisa destas seja possível? É que uma coisa é não ter verificado o curriculum tosco do “consultor Artur”, nem ter desconfiado do discurso incompatível com um funcionário da ONU, outra, verdadeiramente incompreensível, é ter tomado como verdadeiras as “informações” que ele veiculava e que eram grosseiramente erradas. Uma pessoa informada, como deve ser um jornalista da área, ainda por cima economista, com 32 anos de experiência, deveria ter todos os seus sinais de alarme acionados mal ouvia tais “informações”, até porque esses números errados, e que deveriam estar na memória de qualquer especialista, eram usados como pressupostos de conclusões ou propostas que o burlão fazia.

O segundo conjunto de questões é bem mais grave e deixa-me bem mais inquieto. Se um burlão tão tosco consegue o que o Artur Batista Silva conseguiu, o que pode conseguir um burlão mais refinado e inteligente? Na verdade, se ao perfil bem-falante e estudado juntarmos um curriculum verdadeiro, mesmo que medíocre, este caso mostra que a pessoa em causa pode atingir patamares significativos de influência e decisão, até ao nível do Estado, que permitam estragos bem mais significativos para todos nós. Fico horrorizado com essa ideia, nomeadamente ao pensar como certas pessoas, que nunca escolhemos ou que não estão sujeitas ao escrutínio democrático, atingem lugares de assessoria e consultoria e têm influência real na forma como são geridos os interesses de todos os portugueses no Estado, nas empresas e nos serviços. E imagino como certas coisas que eu considerava inimagináveis, como por exemplo a gigantesca fraude do BPN, são afinal possíveis e até muito fáceis. O caso Artur Batista Silva não é um caso menor, ou um simples acaso. É a imagem de uma sociedade acrítica, hipócrita e que vive de imagens. Algo que exige uma reflexão profunda de todos porque é um evento terminal de credibilidade e de seriedade.

(Publicado no Diário As Beiras de 27 de Dezembro de 2012)

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1 Comment

  1. Joao Pires 1 de Janeiro de 2013 at 17:18

    …o nome dele é Baptista e não Batista

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