Separa-nos um fosso da largura da verdade

 

Ser parecer

 

 

 

 

 

 

O Tribunal de Contas denunciou que, entre 2006 e 2011 (Governo Sócrates), o Estado vendeu património a si mesmo, ou seja, o Estado vendeu a empresas do Estado (nomeadamente do universo Parpública) 1381 milhões de euros (num total de 1438 milhões). Como resultado, em muitos casos, o Estado acabou por ter de restituir o pagamento ou até pagar compensações financeiras.

Até quando os responsáveis por tamanhos desmandos políticos e financeiros irão permanecer impunes perante a injusta Justiça portuguesa?

Será que quem nos governa e que quem já decretou o estado de guerra em Portugal ainda não percebeu que não há nada mais desmobilizador para os «soldados» portugueses do que a banalização e a impunidade destes crimes, baseados na burla e na mentira, que todos são injustamente obrigados a pagar, incluindo os mais desfavorecidos e os reformados?

Até quando é que estes crimes, que contribuem para a triste imagem de país corrupto que temos, irão continuar a prescrever, tal como aconteceu há dias com as dívidas de grandes empresas à Segurança Social? E o mais patético foi assistir à forma displicente, obscena até, com que os actuais responsáveis por este pelouro sacudiram a água do capote. A impunidade grassante é tal que não chegou a rolar uma única cabeça, como aconteceria em qualquer Estado de Direito que se prezasse!

Do mesmo modo, em vez de responsabilizar política e criminalmente os autarcas que endividaram ilegitimamente as suas autarquias, o Governo cria (pasme-se!) um Fundo de Resgate para as Autarquias em Situação de Falência, que vai iniludivelmente sair dos bolsos dos depauperados «soldados» portugueses!

Uma democracia em que reina tamanha impunidade política está de facto muito longe de ser uma democracia verdadeira e internacionalmente credível.

Será que os responsáveis políticos portugueses ainda não perceberam que a reputação, o prestígio e a credibilidade de um país só se resgatam com um combate consequente à corrupção, com políticos experientes e de reconhecido mérito e com políticas honestas e sustentadas?

Será que o Senhor Presidente da República ainda não compreendeu que ideias peregrinas, como a que foi agora anunciada de criar um elitista Conselho da Diáspora, acabam por ter o efeito perverso de nos tornarem num alvo fácil da chacota internacional? Ao contrário do que se pretenderá, não são Conselhos da Diáspora que irão branquear a nacionalização de burlas como a do BPN; as leis feitas à medida para as reformas e subvenções de políticos ou para lavar a 7,5% o dinheiro que capitalistas sem escrúpulos esconderam em paraísos fiscais; a impunidade em que redundam gritantes desmandos políticos e financeiros; o défice de Justiça na justiça portuguesa; etc., etc.

Perante tudo isto, abstenho-me de comentar o monólogo patético, digno de uma qualquer farsa velha como os tempos, que o «Pedro» dirigiu ontem aos seus «Amigos» no Facebook.

Como se os «Amigos» do Primeiro Ministro, os perdulários «soldados» portugueses, fossem tão estúpidos que não se apercebessem das incongruências crassas com que continuam a ser geridas as despesas públicas! Não são todavia propriamente as atoardas facebookianas do Pedro que me afligem! O que deveras me aflige é vislumbrar nas entrelinhas daquele postiço post a trágica actualidade das palavras que Torga registou no seu Diário, em Março de 1979, quando a democracia portuguesa, com quase cinco anos de idade, dava ainda os primeiros passos:

«A política é para eles uma promoção e para mim uma aflição. E não há entendimento possível entre nós, apesar do meu esforço. Separa-nos um fosso da largura da verdade. Radicalmente insinceros, nenhum pudor os inibe. Mentem com tal convicção que se enganam a si próprios, e acabam por acreditar que são o que fingem ser. Levam-se a sério no papel de homens providenciais que dão ordem à desordem, virtude ao vício, luz à escuridão. Que outorgam a liberdade apenas a nomeá-la do alto das tribunas. E nem sequer consigo fazê-los compreender que representam sem originalidade uma farsa velha como os tempos […] Narcisos numa sala de espelhos, confirmam-se em cada imagem multiplicada.»

Ana Maria Ramalheira

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