Viva a diferença! Co-adopção, intolerância e discriminação (2)

 

democracia musculada

A intolerância, o ódio e a delirante raiva censória e persecutória que ressumam da forma como certos parlamentares (com responsabilidades ao mais alto nível) se referem a quem não pensa como eles são a todos os títulos reveladores da sua ética política! O inqualificável “bullying” persecutório no Parlamento está de facto a assumir proporções muito preocupantes:

“O CDS mete-me nojo e causa-me escândalo moral. A hipocrisia de um Partido Político que é liderado por um homossexual mas que vota a favor da continuidade da discriminação de famílias e da orfandade forçada de crianças ultrapassa a minha capacidade de verbalização”. […] Também me causa repulsa o papel ignóbil da Presidente Assunção Esteves: uma lésbica não poderia hoje recusar-se a participar naquela votação […] [As duas deputadas do PSD que alteraram o seu sentido de voto] mostraram serem mulheres sem coluna vertebral e sem consciência” (Carlos Reis [da Silva], FB).

Este reacção verdadeiramente discriminadora e intolerante a uma votação democrática na Assembleia da República ombreia com uma outra, relatada por Francisco Teixeira anteontem no seu blog.

“METEM-ME NOJO”

“Almoçava eu com um amigo, junto ao Parlamento, quando um grupo se aproximou da nossa esplanada na Praça das Flores, em Lisboa. Na frente do grupo, o líder, ou assim fisicamente se apresentava, trazia os olhos bem abertos e o dedo em riste. “Vocês metem-me nojo! Metem-me nojo! Metem-me nojo!”, gritava insistentemente Paulo Pamplona Côrte-Real.

A esplanada parou. Olhou à volta e percebeu que o senhor dirigia-se a mim e ao meu amigo. “Vocês metem-me nojo! Metem-me nojo! Metem-me nojo!”, insistia com os braços no ar. Automaticamente levantei-me e perguntei-lhe cara na cara se me conhecia. Sabia quem eu era? O que tinha feito? “Vocês metem-me nojo! Metem-me nojo! Metem-me nojo!”, ele não saía dali.

Mais tarde, já eram duas as pessoas que gritavam o mesmo: “Vocês metem-me nojo! Metem-me nojo! Metem-me nojo!”. Dirigi-me a Miguel Vale de Almeida, que aprendi a respeitar quando passou pelo Parlamento. Mas ele insistia: “Vocês metem-me nojo! Metem-me nojo! Metem-me nojo!”. Disse apenas: “Tinha melhor ideia sua: não por concordarmos, mas por sermos sensatos”. “Preferia que me achasses uma merda”, respondeu exaltado.

Num primeiro momento senti-me a regressar à bancada sul, do demolido estádio José Alvalade, onde passei muitas noites e tardes da minha adolescência. Porquê tudo isto? O meu amigo, deputado, tinha acabado de votar a co-adopção por casais homossexuais e o voto dele tinha ido contra a vontade de Miguel Vale de Almeida (ex-deputado) e de Paulo Pamplona Côrte-Real (da direção da ILGA).

Eles não sabiam, mas acertaram: sou conservador nos costumes, sou contra a adoção por casais homossexuais. E digo-o hoje, aqui, como diria no Parlamento se fosse deputado, ou nas urnas se o tema for referendado. Não sou melhor por pensar assim. Sei sim, que penso assim. Sei sim que, no meu país, posso pensar assim sem ser insultado e mal tratado enquanto almoço numa esplanada.

O que me assustou não foram os insultos. Com insultos posso bem. Foi de onde vieram: de duas pessoas que têm a obrigação de elevar o debate e vencer as suas batalhas com argumentos sólidos. Não com insultos baratos. Despedi-me de Miguel Vale de Almeida e de Paulo Pamplona Côrte-Real, entre os gritos que soltavam com uma frase curta: “Quem chega à vossa idade e se comporta assim é porque não aprende”.

Eles sentaram-se numa mesa a 10 metros da nossa, onde se juntaram outros defensores da mesma causa. Achei genuinamente que, durante a hora que durou o meu almoço, se levantariam para pedir desculpa pelos insultos. Pagámos, pedimos fatura com contribuinte e viemos embora. E, como é óbvio, enganei-me: não houve pedido de desculpas.

Admito que a democracia tenha saído derrotada, aos olhos de alguns, quando hoje o Parlamento chumbou a co-adopção por casais do mesmo sexo. Mas estou certo que saiu muito maltratada quando dois senhores letrados e educados partem para o insulto gratuito, apenas e tão só, porque há quem pensa diferente. A este comportamento e, apenas, a este comportamento deixo duas palavras: “Mete-me nojo”.” (http://mais.blogs.sapo.pt/coadopcao-metem-me-nojo-32004)

 

Ana Maria Ramalheira

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